sexta-feira, abril 07, 2006

...budista

no Sanguinhal, Bombarral.

"A construção deste jardim por detrás do edifício principal da Quinta surpreende até mesmo quem já sabe da sua existência. Ao visitá-lo senti-me transportada para um reino longuinquo, onde impera a calma, o silêncio e a compreensão. Todo o cenário é digno de ser visitado, até porque de quando a quando somos surpreendidos por um Buda, ou até mesmo por três pagodes, em que um deles tem uma altura de 15 metros. A beleza e o pormenor das peças são deslumbrantes."

As fotos acima são do blog: Entrelinhas Online, através do qual tive conhecimento desta intervenção.



Este jardim está a ser feito na Quinta de Loridos, a qual remonta ao século XVI, tendo sido comprada há uns anos por Joe Berardo.

Ainda só tive oportunidade de ver ao longe o referido jardim, mas será que o genius locis desta quinta do sec. XVI combina com este exotismo oriental?

...do olhar


"Saudades. É tão simples e certinho, como dois e dois serem quatro: tenho saudades. Dos rumores da tua presença, talvez amanhã talvez na sexta, do quiçá da tua chegada, da iminência da tua voz a meio da manhã e da mesa para dois, quadrada, demasiado grande (para quê, tanto espaço?); tu, do lado de lá, longe de mais e eu, debruçada sobre o prato, oferecida, a morder-me os lábios e a lamber-me os dedos, os cotovelos mal-educados em cima da toalha para que pudesse esticar-me o queixo um bocadinho mais na tua direcção, para que me visses tão nítida que nunca me duvidasses por um segundo sequer. Esqueci-me que, mesmo assim, mesmo com a certeza do meu rosto a fundir-se no teu hálito, serias tu a calares as palavras e a esqueceres-me primeiro."

Roubado de: Um amor atrevido

Mas foi por uma boa causa

... de Florbela


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
É não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flaameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

Florbela Espanca, Charneca em Flor

terça-feira, abril 04, 2006

...de poupa

A final a ave que estava na estrada à minha frente era uma Poupa...

Nome vulgar: Poupa
Nome científico: Upupa epops (mais informação)
Dimensão: 25 a 29 cm de comprimento;

Descrição: é uma ave castanha, com as asas pretas e brancas; poupa grande muito visível quando erecta. Bico longo e um pouco recurvado.
Voz: o canto do macho é um característico “pu-pu-pu” .
Habitat: privilegia terrenos abertos com zonas de solo exposto ou erva curta, onde possa procurar alimento; dependente de cavidades onde possa nidificar como em árvores ou edifícios.
Distribuição: distribui-se pela quase totalidade do Velho Mundo: Europa, Ásia até ao Japão, África desde Marrocos à África do Sul e ainda Madagáscar. Em Portugal nidifica no território continental e no arquipélago da Madeira.
Estatuto migratório: Predominantemente estival no norte e centro do território nacional e parcialmente residente no sul
Nome inglês: Hoopoe


...sobre Mexico City

Fotografias aéreas tiradas de Helicóptero sobre Ixtapaluca, Mexico City

'Mike Wasowski
A poluição cobre a Cidade do México
'Xico' cratera de vulcão
"Cerro Chiquihuite" Um muro impede a construção pelo morro acima
Um bairro social- (moderno?) em Ixtapaluca


...mais, de Gedeão

'The Kiss' pintura de Rabi Khan

Impressão digital

Os meus olhos são uns olhos.
E é com esses olhos uns
Que eu vejo no mundo escolhos
Onde outros com outros olhos,
Não vêem escolhos nenhuns.

Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores
Uns outros descobrem cores
Do mais formoso matiz.

Nas ruas ou nas estradas
Onde passa tanta gente,
Uns vêem pedras pisadas,
Mas outros, gnomos e fadas
Num halo resplandecente.

Inútil seguir vizinhos,
Querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.

António Gedeão, Poesias Completas

domingo, abril 02, 2006

...brasileiro no Espaço


Fotos: via

Aparentemente este assunto não tem nada a ver com o que costumo guardar aqui no blog. Mas a idéia sempre foi guardar aqui as coisas que mais me tocam.
E esta tocou porque não é todos os dias que se lê que o 1º astronauta brasileiro integrou uma tripulação com mais dois astronautos, num foguetão russo Soyuz, até á Estação Espacial Internacional.
"A Russian Soyuz rocket launches three astronauts on a two-day trek to the International Space Station (ISS).
Brazil’s first astronaut and the 13th ISS crew launched spaceward on March 29, when their Russian-built Soyuz rocket and its TMA-8 spacecraft shot into orbit at 9:30 p.m. EST (0230 March 30 GMT).
Brazilian astronaut and Air Force Lt. Col. Marcos Pontes, ISS Expedition 13 commander Pavel Vinogradov and flight engineer Jeffrey Williams rode the Soyuz TMA-8 spacecraft into orbit. They are completing a two-day race to catch up to the ISS before docking at an Earth-facing berth on its Zarya control module.
Pontes will spend 10 days in space – eight of them aboard the ISS – conducting nanotechnology studies and other experiments. Vinogradov and Williams will relieve the space station’s current crew – Expedition 12 commander Bill McArthur and flight engineer Valery Tokarev – and spend six months working aboard the ISS.
McArthur, Tokarev and Pontes will return to Earth on April 8 aboard their Soyuz TMA-7 spacecraft."
Em entrevista Marcos Pontes dizia: “I am taking the Brazilian flag – the most important thing that I am taking,” he said. “Actually, I am going with the flag, not the flag going with me.”
E isto tocou-me...

sábado, abril 01, 2006

...no Fórum

Através do green man tomei conhecimento do aparecimento deste fórum português que visa tratar assuntos relacionados com plantas, suas doenças e para minha satisfação paisagismo.

sexta-feira, março 31, 2006

...de Pessoa

Foto de: Nando Crehuet

Daqui a pouco acaba o dia.
Não fiz nada.
Também, que coisa é que faria?
Fosse o que fosse, estava errada.

Daqui a pouco a noite vem.
Chega em vão
Para quem como eu só tem
Para contar o coração.

E após a noite a irmos dormir
Torna o dia.
Nada farei senão sentir.
Também que coisa é que faria?

Fernando Pessoa, Poemas dispersos

...de Sophia

Não creias, Lídia que nenhum estio
Por nós perdido possa regressar
Oferecendo a flor
Que adiámos colher.
Cada dia te é dado uma só vez
E no redondo círculo da noite
Não existe piedade
Para aquele que hesita.
Mais tarde será tarde e já é tarde.
O tempo apaga tudo menos esse
Longo indelével rasto
Que o não vivido deixa.
Não creias na demora em que te medes.
Jamais se detém Kronos cujo passo
Vai sempre mais à frente
Do que o teu próprio passo.
Sophia de Mello Breyner Andresen, Antologia

quinta-feira, março 30, 2006

...em pensamentos


'O homem começa a envelhecer quando as lamentações começam a tomar o lugar dos sonhos.'

John Barrymore

Não é que eu tenha medo de envelhecer, mas vou esforçar-me por nunca deixar de sonhar

...van

...de Tom e Vinicius

Eu não existo sem Você

Eu sei e você sabe,
já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo
levará você de mim
Eu sei e você sabe
que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
me encaminham pra você
Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você.

Tom Jobim / Vinicius de Moraes

quarta-feira, março 29, 2006

...a 29

CAMINHOS
Caminhos cruzados de abraços perdidos,
diversos,
dispersos no meio da multidão,
passos rápidos de vidas banais.
Caminhos como traços impressos na calçada,
sulcos na terra revolta, pegadas no chão.
Caminhos de encontros,
de ida e de volta,
pendentes,
incógnitos da vida, da sorte, da morte.
Caminhos de esperança,
claros, escuros,
suspiros, sussurros
de amor e solidão.

Troti

...semelhante

Nem Sempre Sou Igual

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,

Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés —
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma ...

Alberto Caeiro - O Guardador de Rebanhos

terça-feira, março 28, 2006

...de Paul Klee

Paul Klee - Flora-on-The-Sand-Print-
Foi um pintor suiço de estilo abstracto,
(nasceu a 18 de Dezembro de 1879, em Munchenbuchsee, perto de Berna
morreu a 29 de Junho de 1940, em Muralto, perto de Locarno) .
Sempre senti uma certa empatia com o nome de Paul Klee, mas só agora reparei melhor neste trabalho dele...
e nas suas palavras:
"O pior acontece quando a ciência é considerada uma forma de arte."
"A arte não reproduz o visível; ela torna visível".
"A gente encontra o próprio estilo quando não consegue fazer as coisas de outra maneira".

...particularmente florido

se este é o sítio onde guardo o que mais me toca, nao resisto a guardar aqui a beleza das plantas que convivem comigo Grevillea rosmarinifolia
inicia a floração perto do natal e assim permanece até Setembro/Outubro. Parece estar em disputa com a sua vizinha

Westringea fruticosa

da qual não me apercebi de qualquer pausa na floração desde que foi plantada (2 anos)

Diosma ericoides
normalmente discreto, ...mas não agora

Prunus laurocerasus

as flores brancas das panículas estão a começar a abrir

Iris e Persicaria capitata

a primeira de flores brancas delicadas impõem-se apenas durante uns dias, a segunda já floresce desde o outono e vai continuar...

Vista geral em tons de branco, vermelho, rosa e lilás

sexta-feira, março 24, 2006

...para descontrair

E depois de ver como se faz... é só brincar

quinta-feira, março 23, 2006

...de Monet


Water-Lilies-II-Claude Monet

Printemps-Claude Monet

Garden-At-Giverny - Claude Monet
I'm lovin' it

quarta-feira, março 22, 2006

TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho genios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas
-Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, para o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei que moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeiraTalvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheco-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos