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quarta-feira, maio 21, 2008

...de Alegre


Gostava de morar na tua pele

desintegrar-me em ti e reintegrar-me

não este exílio escrito no papel

por não poder ser carne em tua carne.

Gostava de fazer o que tu queres

ser alma em tua alma em um só corpo

não o perto e o distante entre dois seres

não este haver sempre um e sempre o outro.

Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum

tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém

seremos sempre dois sendo só um.

Por isso esta ferida que faz bem

este prazer que dói como outro algum

e este estar-se tão dentro e sempre aquém.



Manuel Alegre

domingo, junho 17, 2007

...mais de Alegre

Que o poema tenha rodas motores alavancas
que seja máquina espectáculo cinema.
Que diga à estátua: sai do caminho que atravancas.
Que seja um autocarro em forma de poema.

Que o poema cante no cimo das chaminés
que se levante e faça o pino em cada praça
que diga quem eu sou e quem tu és
que não seja só mais um que passa.

Que o poema esprema a gema do seu tema
e seja apenas um teorema com dois braços.
Que o poema invente um novo estratagema
para escapar a quem lhe segue os passos.

Que o poema corra salte pule
que seja pulga e faça cócegas ao burguês
que o poema se vista subversivo de ganga azul
e vá explicar numa parede alguns porquês.

Que o poema se meta nos anúncios das cidades
que seja seta sinalização radar
que o poema cante em todas as idades
(que lindo!) no presente e no futuro o verbo amar.

Que o poema seja microfone e
fale
uma noite destas de repente às três e tal

para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal.

Que o poema seja encontro onde era despedida.
Que participe. Comunique. E
destrua
para sempre a distância entre a arte e a vida
.
Que salte do papel para a página da rua.

Que seja experimentado muito mais que experimental
que tenha ideias sim mas também pernas.
E até se partir uma não faz mal:
antes de muletas que de asas eternas.

Que o poema assalte esta desordem ordenada
que chegue ao banco e grite: abaixo a pança!
Que faça ginástica militar aplicada
e não vá como vão todos para França.

Que o poema fique. E que ficando se aplique
a não criar barriga a não usar chinelos.
Que o poema seja um novo Infante Henrique
voltado para dentro. E sem castelos.

Que o poema vista de domingo cada dia
e atire foguetes para dentro do quotidiano.
Que o poema vista a prosa de poesia
ao menos uma vez em cada ano.

Que o poema faça um poeta de cada
funcionário já farto de funcionar
.
Ah que de novo acorde no lusíada
a saudade do novo o desejo de achar.

Que o poema diga o que é preciso
que chegue disfarçado ao pé de ti
e aponte a terra que tu pisas e eu piso.
E que o poema diga: o longe é aqui.

Manuel Alegre, Poemarma

terça-feira, setembro 19, 2006

...de Alegre

Lagarta em ramo de arruda (Ruta graveolens) na sua batalha para alcançar a beleza da borboleta

Irei morrer ainda a Salamina

Mesmo que da antiga perdida grandeza

Não reste mais do que desordem e ruína

Irei morrer ainda a Salamina

Pelo sol pela luz pela beleza

Salamina, Manuel Alegre CHEGAR AQUI, Edições João Sá da Costa, Lisboa, 1984, 1ª edição, p. 41