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terça-feira, fevereiro 21, 2012

...ao nascer do dia

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

- Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, maio 08, 2009

" Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade."

Sophia de Mello Breyner Andersen, Liberdade

terça-feira, março 24, 2009

... de flor e perfume

Naquele Tempo
Sob o caramachão de glicínia lilaz
As abelhas e eu
Tontas de perfume
Lá no alto as abelhas
Doiradas e pequenas
Não se ocupavam de mim
Iam de flor em flor
E cá em baixo eu
Sentada no banco de azulejos
Entre penumbra e luz
Flor e perfume
Tão ávida como as abelhas

(Abril de 98)

Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, abril 06, 2008

...de sol no jardim

As imagens transbordam fugitivas
E estamos nus em frente às coisas vivas.
Que presença jamais pode cumprir
O impulso que há em nós, interminável,
De tudo ser e em cada flor florir?



Sophia de Mello Breyner Andresen, As imagens transborbam
Obra Poética I
Caminho

(A chorina do meu jardim a 'abarrotar' de flor - não cabe nem mais uma )

segunda-feira, março 24, 2008

...

E eu caminhei nas praias e nos campos
O azul do mar e o roxo da distância
Enrolei-os em redor do meu pescoço
Caminhei na praia quase livre como um deus

Não perguntei por ti à pedra meu Senhor
Nem me lembrei de ti bebendo o vento
O vento era vento e a pedra pedra

E isso inteiramente me bastava
E nos espaços da manhã marinha
Quase livre como um deus eu caminhava
E todo o dia vivi como uma cega

...

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Hospital e a praia
in Obra Poética II, Caminho, 1995

terça-feira, janeiro 29, 2008

...de branco na paisagem

Poema de geometria e de silêncio
Ângulos agudos e lisos
Entre duas linhas vive o branco.
Sophia de Mello Breyner Andresen, Poema

domingo, janeiro 06, 2008

...de mar

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.
Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.
Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.
Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.
Sophia de Mello Breyner, Fundo do Mar

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Foi no mar que aprendi o gosto da forma bela
Ao olhar sem fim
o sucessivo
Inchar e desabar da vaga
A bela curva luzidia do seu dorso
O longo espraiar das mãos da espuma

Por isso nos museus da Grécia antiga
Olhando estátuas frisos e colunas
Sempre me aclaro mais leve e mais viva
E respiro melhor como na praia

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, dezembro 10, 2007


...
A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto
...
Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, dezembro 06, 2007


Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.

A tua beleza aumenta quando estamos sós

E tão fundo intimamente a tua voz

Segue o mais secreto bailar do meu sonho.

Que momentos há em que eu suponho

Seres um milagre criado só para mim.
Sophia de Mello Breyner Andresen, mar sonoro

segunda-feira, julho 16, 2007

...no ponto


No ponto onde o silêncio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão,
Tão nítido e preciso era o vazio.

Sophia de Mello Breyner Andresen, No ponto

terça-feira, maio 29, 2007

...de musa


Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos


Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos

Musa ensina-me o canto
Imanente e latente

Eu quero ouvir devagar
O teu súbito falar
Que me foge de repente.

Sophia Mello bryener, Musa

domingo, novembro 19, 2006

...sem limites

Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!
Sophia de Mello Breyner Andreson