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quinta-feira, maio 14, 2009

...touché

DEFICIÊNCIAS, Mário Quintana

'Deficiente' é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.
'Louco' é quem não procura ser feliz com o que possui.
'Cego' é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria, e só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.
'Surdo' é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês. 'Mudo' é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.
'Paralítico' é quem não consegue andar na direcção daqueles que precisam de sua ajuda.
'Diabético' é quem não consegue ser doce.
'Anão' é quem não sabe deixar o amor crescer. E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois:

' A amizade é um amor que nunca morre.

terça-feira, novembro 13, 2007

...e o tempo

Relógio de Sol - Igreja Nossa Sra da Encarnação - Encarnação, Mafra - Séc. XVII/XVIII

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal... Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas... Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

Mário Quintana

segunda-feira, dezembro 11, 2006

...quando está frio

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.


Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno —
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no fato de aceitar —
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.


Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só corri a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.


Alberto Caeiro - Quando está frio

Quanto mais leio Fernando Pessoa e neste caso Alberto Caeiro, mais admiro a sua obra. E ao ler este último sobre a aceitação do que é natural, lembrei-me de que já tinha pensado isso, e de umas palavras sábias que encontrei há dias:

Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente ... e não a gente a ele!
Mario Quintana - A vaca e o hipogrifo

Tília no Jardim da Rainha - Mata do Parque D.Carlos I

Eu aceito as folhas que caem no Outono, o frio do Inverno, as chuvas que causam as cheias, o calor do Verão, as flores da Primavera, porque tudo isso é natural...

Já não consigo entender que se cortem as árvores cujas folhas 'sujam' o nosso pátio, ... porque é o nosso pátio que já não é natural... ( e se as folhas incomodarem, porque não varrê-las?)

É esta mesma atitude que se repete actualmente na nossa relação com os fenómenos naturais e com o meio natural envolvente... o que é natural incomoda-nos e é um alvo a abater!

Mas numa coisa eu não subscrevo o poema acima: Eu queixo-me muito com frio, passo o dia a queixar-me com frio, mas queixo-me porque acho que assim o suporto melhor, ... (lol ) mas aceito-o ;)

quinta-feira, dezembro 07, 2006

...de Quintana

I

Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:Verde!...
E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!
Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...
Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...
Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!


Mario Quintana - A Rua dos Cataventos