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sábado, janeiro 05, 2013

... cativo


Soneto do Cativo

Se é sem dúvida Amor esta explosão 

de tantas sensações contraditórias; 

a sórdida mistura das memórias, 

tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão 


de frases insensatas, incensórias; 


a cúmplice partilha nas histórias 


do que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia 


de buscar nos lençóis a mais sombria 


razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida, Amor, que te não fujo 


e que, por ti, tão cego, surdo e sujo, 


tenho vivido eternamente preso!

David Mourão-Ferreira, in “Obra Poética”

sexta-feira, março 07, 2008

...na praia

A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa...

Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.

Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de súbito surgido à flor dos limos.

E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu.
David Mourão-Ferreira, Soneto do Amor Difícil

segunda-feira, agosto 20, 2007

...de David Mourão Ferreira

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão Ferreira, E por vezes - em "366 poemas que falam de amor"